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A Menina Gigante

Ela acordava todos os dias esperando ser olhada, esperando ao menos ser vista como desejava, como sonhava, como tanto ansiava.

Mas, em meio a tantos irmãos, tantos filhos naquela família, entre a rotina amontoada de afazeres domésticos, era apenas mais uma — mais uma entre tantos outros .Mais necessidade, mais demanda, mais silêncio...

Ela sentia que não se encaixava.

E se perguntava: de onde vinha aquela sensação?

De onde nascia aquele desejo de compreender o que acontecia dentro dela?

De onde brotava a não aceitação, o questionamento que latejava em sua alma?

Sempre que tentava falar, era reprimida.

Quando ousava expressar, era calada.

Quando mostrava sua inquietação, era diminuída.

Diziam-lhe: “Você é feia. Você não é capaz. Você é um estorvo. Você se acha sabida demais.”

Essas frases vinham, ora em palavras, ora em gestos e silêncios, que feriam ainda mais.

Sua fuga era o quintal, o pomar de laranjas e mexericas, a trilha pela matinha, o topo do morro.

Ali, do alto, observava ao longe a casa e aquelas pessoas que, de perto, eram gigantes assustadoras, mas que dali pareciam tão pequenas... formiguinhas zanzando de um lado para outro.

E, no entanto, ao vê-las tão diminutas, ela mesma se sentia ainda menor.

Um vazio a consumia.

Uma sombra crescia dentro de seu peito.

Perguntava-se: Por quê?

O que provocava aquele desamparo, aquela angústia que a deslocava de todos os lugares? Quem era ela, afinal?

O que queria?

O que estava fazendo ali?

Desde cedo, tornou-se obstinada em encontrar respostas para suas dores e para os seus sonhos.

Enfrentou desafios — muitos desoladores, outros profundamente dolorosos.

As escolhas, por vezes duvidosas, a conduziram a um casamento tóxico e violento.

E foi preciso aprender que a vida é dura, que as pessoas nem sempre são boas, e que era necessário segurar a própria barra.

Seguiu, então, na luta, na busca, no crescimento.

O questionamento — essa dor, esse vazio, essa raiva de si mesma — transformou-se em combustível.

Era sua energia para continuar, para se descobrir, para se apropriar da própria realidade e identidade.

E assim foi amadurecendo, passo a passo, não por mágica, mas por enfrentamento. Muitas vezes, arrancando soluções à unha, na beira do desespero, diante da sensação de estar em um beco sem saída.

Hoje, ao olhar para trás, enxerga aquela menina no alto do morro, fitando a casa com o telhado colonial, observando de longe as pessoas que pareciam gigantes de perto, mas minúsculas quando vistas dali.

Elas continuam pequenas e grandes ao mesmo tempo.

Mas ela...

Ela não se vê mais tão pequena.

Aprendeu a olhar de igual para igual.

Hoje, ela é gigante.

A trajetória continua, o caminho segue.

É duro. É difícil.

Mas é possível se encontrar.


E isso — isso não tem preço.

 
 
 

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Você pode continuar carregando essa dor… ou escolher recomeçar com leveza, consciência e amor-próprio.
A escolha é sua.

A jornada começa agora.

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