A Menina Gigante
- Josiane Lyrio
- 13 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Ela acordava todos os dias esperando ser olhada, esperando ao menos ser vista como desejava, como sonhava, como tanto ansiava.
Mas, em meio a tantos irmãos, tantos filhos naquela família, entre a rotina amontoada de afazeres domésticos, era apenas mais uma — mais uma entre tantos outros .Mais necessidade, mais demanda, mais silêncio...
Ela sentia que não se encaixava.
E se perguntava: de onde vinha aquela sensação?
De onde nascia aquele desejo de compreender o que acontecia dentro dela?
De onde brotava a não aceitação, o questionamento que latejava em sua alma?
Sempre que tentava falar, era reprimida.
Quando ousava expressar, era calada.
Quando mostrava sua inquietação, era diminuída.
Diziam-lhe: “Você é feia. Você não é capaz. Você é um estorvo. Você se acha sabida demais.”
Essas frases vinham, ora em palavras, ora em gestos e silêncios, que feriam ainda mais.
Sua fuga era o quintal, o pomar de laranjas e mexericas, a trilha pela matinha, o topo do morro.
Ali, do alto, observava ao longe a casa e aquelas pessoas que, de perto, eram gigantes assustadoras, mas que dali pareciam tão pequenas... formiguinhas zanzando de um lado para outro.
E, no entanto, ao vê-las tão diminutas, ela mesma se sentia ainda menor.
Um vazio a consumia.
Uma sombra crescia dentro de seu peito.
Perguntava-se: Por quê?
O que provocava aquele desamparo, aquela angústia que a deslocava de todos os lugares? Quem era ela, afinal?
O que queria?
O que estava fazendo ali?
Desde cedo, tornou-se obstinada em encontrar respostas para suas dores e para os seus sonhos.
Enfrentou desafios — muitos desoladores, outros profundamente dolorosos.
As escolhas, por vezes duvidosas, a conduziram a um casamento tóxico e violento.
E foi preciso aprender que a vida é dura, que as pessoas nem sempre são boas, e que era necessário segurar a própria barra.
Seguiu, então, na luta, na busca, no crescimento.
O questionamento — essa dor, esse vazio, essa raiva de si mesma — transformou-se em combustível.
Era sua energia para continuar, para se descobrir, para se apropriar da própria realidade e identidade.
E assim foi amadurecendo, passo a passo, não por mágica, mas por enfrentamento. Muitas vezes, arrancando soluções à unha, na beira do desespero, diante da sensação de estar em um beco sem saída.
Hoje, ao olhar para trás, enxerga aquela menina no alto do morro, fitando a casa com o telhado colonial, observando de longe as pessoas que pareciam gigantes de perto, mas minúsculas quando vistas dali.
Elas continuam pequenas e grandes ao mesmo tempo.
Mas ela...
Ela não se vê mais tão pequena.
Aprendeu a olhar de igual para igual.
Hoje, ela é gigante.
A trajetória continua, o caminho segue.
É duro. É difícil.
Mas é possível se encontrar.

E isso — isso não tem preço.









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